AFIADAS #3

Participamos do terceiro episódio do programa Afiadas, apresentado pela Tetafunk da @festalamina, nos stories da Desvio. Aqui você pode ler a entrevista na íntegra:

1- Vocês poderiam explicar o simbolismo do nome Escola de Mistérios e como chegaram a ele?

O nome surgiu na época que eu (Quimera) morava com a Sabine Passareli, juntas costumávamos ver o documentário Olho de Hórus, sobre a cultura kemética. Nesse documentário eles falam sobre as práticas de saber da época, em que não havia tanta especialização entre os conteúdos, então os sacerdotes se reuniam através das escolas de mistérios para estudar religião, matemática, arquitetura, medicina, etc, de forma integrada. Eram encontros sigilosos portanto dependiam da presença do aprendiz, e pra mim esta é uma abordagem encarnada do conhecimento, em que ele depende da presença, do coletivo e da troca, para se consolidar.

O nome precedeu muitas das nossas propostas, pois no início a ideia era que fôssemos apenas um duo, mas inspirados pelo nome fomos também concebendo formatos diferentes, que abarcassem mais pessoas e trouxessem os valores de cooperação e apoio mútuo à proposta. Por isso também escolhemos a nossa logo baseada em um Adinkra, chamado Woforo Dua Pa A, que é um símbolo de suporte, cooperação e encorajamento. 

Eu gosto do Mistério pois o que nós queremos é também ter espaço para descobrir, investigar e nos desenvolver em diversas vertentes, ao invés de tentarmos caber dentro de um gênero ou determinação única. 

2- Quando vocês desenvolveram essa relação com a música? Existe um momento em especial? 

(Miguel) Eu sempre tive uma relação muito íntima com música. Crescendo, em casa, poucos eram os momentos em que não tava tocando algo. Minha mãe era muito fã de Michael Jackson, tinha diversos DVDs com coletâneas de clipes e shows, ali eu desenvolvi o gosto por músicas dançantes, assim como por dançar. Meu pai gosta muito de Black Music tbm, com ele ouvi muita coisa de Stevie Wonder, Marvin gaye, entre outros. Com o passar dos anos o gosto e o conhecimento foram aumentando, passei por diversas fases, a fase emo/rock, a fase hip hop,  a fase eletrônica à la DJ Tiesto kkkk. Cada uma dessas leva à novas descobertas que vão deixando suas marcas, somando elementos que se tornam meu gosto musical hoje em dia, e claramente isso é um processo que nunca vai ter fim. Toda vez que eu sinto a música transcorrer meu corpo e se manifestar em movimento é um momento especial. Por isso acho que a relação com a música ganhou uma nova forma quando comecei a frequentar festas noturnas e pistas de dança, lugares escuros e com o som alto, tocando músicas especialmente feitas para dançar, e nada mais. São para mim experiências quase espirituais, onde é possível se conectar consigo mesmo e com a energia daqueles ao seu redor em pura alegria, manifestando com seu corpo aquilo que se ecuta. Sempre gostei disso, e poder estar dos dois lados dessa troca DJ/Pista é incrível.

(Quimera) Eu e Miguel nos conhecemos tocando em um evento e a partir disso começamos a trocar referências e sair juntos pra dançar. Nossas primeiras aulas de mixagem foram na pista de dança: quando você está entregue, atenta aos detalhes da música, é que percebe realmente o efeito de uma boa mixagem. E foi nosso amor pela pista de dança que nos motivou a aprender mais, a tocar e a entender como funciona o outro lado da cabine, e esse poder de envolver e enfeitiçar os corpos.

3- Durante muito tempo o FUNK foi 100% discriminado, taxado como apologia ao tráfico, sexo e drogas. Vocês acham que isso mudou de alguma forma? Existe realmente um progresso?

Acho que o funk é uma expressão cultural que com o tempo foi sendo digerida e apropriada pela cultura pop, se adequando também a um apelo mais comercial, pra alcançar um público diferente. Com isso, artistas do funk hoje em dia têm uma visibilidade maior do que em outros tempos, em que talvez não fosse tão interessante pra indústria fonográfica capitalizar em cima desse segmento. E agora existem artistas de outros gêneros fazendo músicas de funk, o que mostra o impacto que ele tem na cultura. 

Mas enquanto a indústria, o público em geral e outros artistas se apropriam dessa expressão cultural, o morador, o artista de favela, da onde o funk vem, continua sofrendo violência policial, o baile funk, o funk de favela, continua sendo mal visto e perseguido pelo olhar e poder público. A prisão recente do DJ Rennan da Penha deixa isso bem nítido, mas  também não é algo novo: o Lucas Pedretti conta em um artigo que, entre os materiais do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) encontrados no Arquivo Público, durante uma pesquisa à Comissão da Verdade sobre a ditadura, encontraram vários flyers de eventos de músicas soul no subúrbio carioca, já do início da Furacão 2000. Pela pesquisa, perceberam que durante a ditadura monitoravam não só os eventos, mas também as organizações políticas antirracistas que transitavam nesses espaços. 

Por isso, mesmo que atualmente o funk tenha se tornado pop, sua história, suas raízes, sua cor, ainda são discriminadas. No entanto estamos vivendo um período em que muitos artistas de funk, pretos, têm tido maior reconhecimento, como o próprio Rennan, mas pra mim, a Ludmilla é o maior exemplo disso. 

4- Assim como nosso FUNK carioca foi idealizado do FUNK MIAMI BASS, vocês consideram que o coletivo Escola de Mistérios se idealizou a partir de alguma influência? 

Nossa concepção surge através da vontade de enegrecer o circuito de Festas e Coletivos Eletrônicos na cidade do Rio, então aliado à isso tentamos nas nossas pesquisas resgatar e trazer à tona movimentos musicais Afrocentrados. Não devemos esquecer jamais que a House Music e o Techno foram movimentos originados por majoritariamente pessoas negras em diferentes cidades dos Estados Unidos, então um dos nossos ideais é resgatar essa história e identidade. Além disso há movimentos contemporâneos de música eletrônica africana, presentes nas diversas faces do que pode ser o Afrohouse que tentamos trazer para os nossos sets. Nomes como Black Coffee, Saint Evo, Slikback, DJ Kampire, Sho Madjozi, Esa, KOKOKO!, entre muitos outros.

5- Queria agradecer por esse talk-escola-show e deixar esse último ponto livre para vocês indicarem 5 movimentos queridinhos da Escola de Mistérios.

Bonde do Jack: Coletivo de House Dance aqui do Rio. 

AUR: Cobertura jornalística e midiática de diversas iniciativas culturais puxadas por pessoas negras no Rio de Janeiro e no país. 

Africa Is Not A Jungle: Plataforma iniciada pelo DJ Black Coffee de divulgação de artistas sonoros da África do Sul, principalmente DJs.

Nyege Nyege: Gravadora, coletivo e festival de Uganda, que reúne diversos músicos do continente e da diáspora todo ano, e lança umas músicas bem pra frentex.

Trovoa: Coletivo de artistas e curadoras racializadas que abrange todo território nacional.

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