Quando as luzes estão acesas a pista fica escura

Publicado originalmente na edição de novembro da Revista Jararaca, Brasília/DF, 2019.

Chegamos a um momento em que é necessário reparar as histórias que contamos sobre a influência do pensamento e do trabalho negro na cultura contemporânea.

É cada vez maior o reconhecimento de que as raízes da house music são negras e são indiscutíveis as contribuições da comunidade negra e LGBTQI+ para a sua disseminação. Alastrando de Chicago para o mundo, o gênero multifacetado nasceu em um território marcado pela discriminação racial histórica, moldado por políticas habitacionais que separaram os moradores da cidade pela tonalidade de suas peles – um padrão que pode ser visto espelhado em vários pontos urbanos pelo continente americano.

A house music carregou a cor daqueles que a fizeram pela primeira vez enquanto um movimento comunitário. Manifestações artístico-culturais jamais são desprovidas de contexto, e nessa situação não é diferente. É evidente para nós que a música house é tingida pela cor daqueles que a criaram, e ainda hoje dialoga com aqueles que se esforçam para dar continuidade a esse legado.


Mix feito para Revista Jararaca de Novembro de 2019. Um mix de House Music com músicas feitas exclusivamente por músicos negros.

Acreditamos que os diversos componentes musicais que moldam o house foram usados como recurso para a criatividade em todo o continente e na diáspora africana, reescritos muitas vezes de maneiras diferentes pelas configurações geográficas e culturais ao longo dos anos.

Mas também podemos notar que, em alguns lugares, ela foi mitigada pelo consumo branco em uma configuração geral de experiências desbotadas. Desde que foi despojada de seu aspecto cultural, se tornou atração para o tipo de evento que reúne muitos recursos financeiros, mas pouca presença de pessoas negras em sua redistribuição. O que significa que, no momento, há pessoas que ganham dinheiro com house, mas a maioria não é negra.

A ABERTA, uma plataforma de disseminação da cultura da música eletrônica, recentemente publicou um estudo analisando a presença de djs negres em alguns dos maiores centros urbanos da América Latina, que comprova a radical disparidade nesse setor. A conscientização sobre essa desigualdade nos leva à investigação dos motivos pelos quais isso é, e mais importante, quais medidas são possíveis de serem colocadas em prática para modificar esse cenário.

Acreditamos que a música house é um movimento, e assim, gostaríamos de escurecer a cena, através desse senso de comunidade que um dia já existiu, iluminando a presença negra. Quando as luzes estão acesas a pista fica escura.

Texto: Quimera e Arcanjo Miguel

Imagem: Pedro Pessanha

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2 comentários

  1. Bonde do Jack disse:

    Foda!!! É isso… Regenerar a cena, pigmentando o quanto mais for possível. ✊🏾

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