Electro break retrô futurista de Sansibar

Uma viagem diaspórica da Finlândia à Drexciya

A Finlândia, vista de cima, parece ser uma terra afundando. Seu terreno pouco acidentado, recortado por afluentes, se assemelha ao espinhaço de uma criatura, pronta para submergir nas profundezas do mar Báltico: de volta à Drexciya, quem sabe.

Sem dúvidas um dos artistas que mais escutamos atualmente, Sansibar foi uma descoberta que fez nossos corações pularem uma batida. Mergulhando nas profundidades rítmicas do Electro e do Break, seu som atualiza a estética sombria e misteriosa para as pistas do agora. 

Sansibar é DJ e principalmente produtor, de Helsinki, Finlândia. Especialista em criar atmosferas sonoras, suas músicas evocam a sensação de ser transportado para lugares inexistentes, ainda sim familiares. Essa é uma das mais belas capacidades da música: te levar pra viajar sem sair do lugar, e o domínio de Sansibar em comandar essa experiência revela a verdade do seu trabalho. Aos seus comandos, hipnotizados, viajamos por uma vibe retrô-futurista, que muito pode dialogar com o Afrofuturismo, de um futuro dark distópico de filmes de ficção científica. 

Sendo uma das poucas referências de DJ e produtor negro da Finlândia (honestamente a única que conhecemos, alguém tem mais alguma?), Sansibar nos chamou atenção com suas tracks à la techno Detroit. Produções poderosas de rápidos BPM, fortes no uso de sintetizadores, pesadas no grave com um groove que te controla por toda a música, trazendo também a influência dos electro breaks dos anos 80.

Essa track, por si só um ode à história do Techno de Detroit e sua influência na música, é um exemplo perfeito da bagagem que traz em suas produções.

Suas referências se fecham em full circle: “Anaconda”, da Nicki Minaj (2014), sampleia “Baby Got Back” de Sir Mix-A-Lot (1992), que é por sua vez um sample da linha de baixo de “Technicolor”, lançada em 1985/86, pelo Channel One, grupo de techno que contava com a participação de Juan Atkins, um dos renomados pilares do gênero. Used To Live in Detroit (“Costumava morar em Detroit”) ganha então todo um novo sentido, ao restabelecermos sua origem sonora. É como se, através da track, o Techno estivesse voltando para casa, depois de viajar pelo mundo por vários anos, engrandecido por novas experiências.

Mas não só de bombas feitas para a pista faz seu nome.

A maioria de suas produções são altamente sugestivas a um estado de contemplação e atenção indiscriminada ao novo mundo que seu som sugere. Músicas como “Liquid Programming”, do seu álbum de estreia “Targeted Individuals” lançado em 2020, começam aparentemente agressivas, com um padrão de bateria clássico do Electro, mas são rapidamente ambientadas por melodias espectrais e futuristas que, como devaneios, se repetindo e se sobrepondo, nos enfeitiçam até perdermos a referência de início e fim da meada. Um verdadeiro caso de hipnose sonora, em que somos levados a um mundo todo novo, criado pelas suas frequências, um dos traços mais marcantes e atraentes das composições de Sansibar. 

https://soundcloud.com/enterthedarknet/sansibar-liquid-programming

Com um catálogo prolífico, em constante crescimento, já lançou um LP de 12 faixas e diversos EPs em gravadoras ao redor do mundo (Finlândia, EUA, UK, Austrália, Alemanha, Suíça, entre outros). Seja em pancadões de peak-time ou em faixas hipnóticas que te levam a outro mundo, Sansibar entrega sempre com muita maestria. Vale a pena conferir e acompanhar seu trabalho!

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